O VELHO PARADIGMA DA NORMALIDADE

Após um bom tempo sem pausa no atendimento em um dia de expediente, chega no guichê um senhor aparentemente educado, pede licença, se apresenta e pergunta o nome daquele servidor, que, por algum motivo, chamou a sua atenção. Naturalmente, retribuo a educação, digo o meu nome e pergunto em que poderia ajudar, ao que ele responde:

- Por favor, me desculpe a indiscrição, mas há mais ou menos uma hora, enquanto aguardava o meu atendimento, estava observando a sua forma de trabalho, atendendo o pessoal e mexendo nos sistemas aí e devo dizer que fiquei muito surpreso.

- Obrigado! O que é isso, tamo aqui pra isso mesmo – respondo eu, imaginando que ele estaria apenas elogiando o bom trato com o público, aquela urbanidade e qualidade do atendimento que todos esperam encontrar no serviço público e que, apesar de obrigação, comummente é motivo de sinal de gratidão a um de nós por quem o encontrou.

- Pois é rapaz. Parabéns, você até parece uma pessoa normal!!! –encerrou ele, encerrando também a minha concepção de “aparentemente educado” que havia tido do cabra.

- Mas eu sou uma pessoa normal! – respondo eu meio que por instinto.

- Ah, você é normal?!!! – perguntou ele, meio que assustado.

Certo que tinha dado um nó na cabeça da criatura, mas com a convicção de que era necessário, como um trabalho de formiguinha, lhe mostrar o óbvio de que apesar de não enxergar eu era uma criatura normal, lhe respondi rindo:

- Sou sim, sou normal!

- Oh, rapaz. Então desculpa ai, desculpa ai. – respondeu ele, saindo num rompante.

Apesar da reação institiva, meu intuito foi instigar a reflexão daquele senhor e dos demais que presenciaram a sua abordagem. Eu só não esperava que ele sairia imediatamente ao descobrir que eu era “normal”.

Quando optei por encarar o atendimento ao público em vez de um serviço administrativo na retaguarda, o fiz por dois motivos: Primeiro, Sempre gostei de lidar com gente, tendo me identificado com as experiências com públicos com as quais passei, como professor e como agente de pesquisa no IBGE. Segundo, era uma oportunidade de, com pouco mais de três anos como pessoa cega, me colocar diante de uma sociedade preconceituosa por natureza e desconhecedora das potencialidades de uma pessoa com deficiência e ajudar a formar a consciência da humanidade a cerca das possibilidades humanas diante da sua diversidade natural Ou seja, mostrar que, ao contrário do que comumente se imagina, cego também é gente e o fato de não enxergar não o impede de trabalhar em igualdade de oportunidade com todos os demais.

Há uma tendência, mesmo diante de tanta evolução no acesso à informação e no processo de inclusão, de uma pessoa com deficiência ainda ser vista como uma pessoa anormal, atraindo olhares inclinados e comentários rasteiros. Pois bem em um desses dias de expediente em que não se tem tempo nem pra respirar, me deparo com o velho paradigma da normalidade, aquele mesmo que decidi encarar, assumindo o meu papel na sociedade como um agente transformador de paradigmas ultrapassados que nos cercam e que só serão mudados com a participação de todos, ao menos no processo de reflexão cultural.

Nesses seis anos de convívio com a cegueira, o que mais tenho buscado é me alinhar em uma vida normal, mesmo vivendo especificidades de uma pessoa que não enxerga, mas que percebe que a vida pode ser perfeitamente vivida, se encontrados os meios, as ferramentas e as pessoas certas que me proporcionem igualdade de condições. No processo de atendimento ao público, onde dezenas de pessoas passam por você diariamente, não vejo a necessidade de agir de forma a mostrar que não enxergo. A princípio, em meu guichê, atendendo alguém diante do computador, nada me difere visualmente dos demais colegas. A interação é a mesma e a cegueira passa despercebida, a não ser que um bom observador se indague o porquê de um fone auricular em um dos ouvidos ou o porque de ele sempre mostrar o papel ou documento para o colega ao lado lhe dizer uma data de nascimento, cpf ou qualquer outro dado impresso. A comunicação é feita como tem que ser, direcionando o olhar para o receptor da mensagem e voltando-se para a tela do computador quando estiver digitando. Tal atitude se dá normalmente, sem obrigação nem regras. Dessa forma, a maioria só percebe que a criatura não enxerga, quando me levanto, pego a bengala e vou até à retaguarda resolver alguma coisa ou fazer alguma consulta. Na maioria das vezes, a normalidade é recíproca e não ouço nenhuma reação que me surpreenda. Por outro lado, sempre há quem manifeste surpresa e no meio do caminho eu ouço um: “-Oxe, ele não enxerga não é?” ou um “-ô gente, ele é cego!”. Por mais acostumado que eu esteja, ainda me surpreendo com tais reações. É o velho paradigma da normalidade.

E qual é a concepção de normalidade que tem aquele senhor? Qual a concepção de normalidade que é manifestada pela sociedade? E a sua concepção de normalidade, qual seria? Normal quer dizer conforme à norma, è regra, a um tipo dado... e que tipo dado seria esse pra se definir a normalidade no ser humano? “Ser normal”, na concepção atual, seria ser igual a todo mundo? E se levarmos em conta que cada ser é único e diferente entre si, como poderíamos ser iguais? Tanta pergunta que converge em uma resposta óbvia, mesma reflexão para a qual pretendi direcionar o diálogo com o senhorzinho que relatei lá atrás... Normal, meu caro, é ser diferente.

A diversidade é a principal característica do ser humano... somos de cores diversas, de classes diversas, de tradições diversas, de opções diversas e temos diversas formas de perceber o mundo. Além disso, a diversidade biológica forma seres humanos com impedimentos de naturezas distintas no seu processo de desenvolvimento, o que faz existir as comumente chamadas de pessoas com deficiência. Nesse ambiente, há diversidade cultural faz existir aqueles com impedimentos de percepção, aqueles que, à luz da ignorância e da tendência humana de preconceito, formam e reproduzem juízos equivocados e discriminatórios de pessoas. Mas o problema não está na ignorância e sim na sua persistência. Como dizia Sócrates, o problema não está em ser ignorante, visto que todos os seres humanos o são. O problema está na relação que o homem tem com a sua ignorância. Muitos simplesmente a ignoram, sendo este o seu principal defeito. O mesmo Sócrates nos ensina que a sabedoria começa na reflexão. A formação do conhecimento passa pela conscientização da humanidade em reconhecer e refletir sobre a sua diversidade inerente para que possa entender que normal é conviver na sociedade em plena igualdade de oportunidades entre todos, independente de cor, religião, classe social, opção sexual, tamanho, peso, impedimento físico ou sensorial.

Por: Jean Abreu

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Perfeita a sua esplanação!

Perfeita a sua esplanação! Sou cego e me identifiquei completamente com o seu post...

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