Inacessibilidade: O retrocesso que operadoras de crédito estão impondo às pessoas cegas

Não sou velho, mas sou do tempo das mercearias, aquelas vendinhas de interior onde comprávamos de tudo e ainda podíamos anotar o débito na caderneta, adiando a facada, pendurando a dívida e consagrando o fiado. Com o avançar do tempo, tais vendinhas foram caindo em desuso, bem como a prerrogativa do fiado, o que acabou sendo substituído por novos e mais seguros sistemas de crédito e de transações financeiras, entre elas o dinheiro de plástico, também conhecido como cartão de crédito ou de débito.

Hoje em dia, qualquer comércio ou prestador de serviço que se preze, dos mais caros aos mais baratos, oferece a seus clientes a opção de pagar através de máquinas de cartões de crédito ou de débito. Pagam uma taxa mensal e uma porcentagem sobre as vendas para atrair mais clientes, impulsionar maiores vendas, evitar acúmulo de dinheiro no ponto, flexibilizar a forma de pagamento e por ai vai. Por outro lado, cresce cada vez mais a quantidade de pessoas que fazem uso de cartões, como forma de ter maior acesso à créditos e formas de pagamento flexíveis, de fugir de furtos e roubos de dinheiro, de ter sempre dinheiro “disponível”, e por ai vai.

Trata-se de uma forma de pagamento que tem evoluído consideravelmente com o atual avanço tecnológico. Com os cartões de débito e de crédito e suas máquinas espalhadas por ai, não precisamos nos preocupar em ficar com o dinheiro tradicional pelos bolsos, incomodados com os ladrões pelas ruas, muito menos com a falta de trocos pelos balcões que sempre nos enchem de balinhas. Além disso, a finada caderneta virou fatura de cartão de crédito e os assustadores cheques voadores deixaram de ser preocupação para quem vende. Mas o que isso tem a ver com o Olhar de Um Cego?

Calma caros leitores! Não mudamos a perspectiva de nosso blog para a seara financeira. O real intuito deste post é alertar que, depois de tanta evolução, de tanto progresso nas transações financeiras e do conseqüente e constante aumento de usuários do tal dinheiro de plástico e de suas máquinas, devo dizer que infelizmente o momento agora é de retrocesso. E sabe quem vai pagar, ou melhor, quem não vai conseguir pagar com este retrocesso? Nós deficientes visuais.

Devo explicar melhor! Eu, enquanto consumidor e cego, uso quase que diariamente meus cartões de crédito e de débito, sobretudo para pagar coisas do cotidiano, como almoços, lanches, farras, passagens, combustível, mercados e táxis. E foi neste último serviço que acabei me deparando com o retrocesso cruel da inacessibilidade. Já havia um bom tempo que não pegava táxi e mais tempo ainda que não o pegava para pagar com cartão. Fiquei surpreso quando o taxista, ao ver que eu estava só, me perguntou se eu realmente pretendia pagar a corrida com o cartão, como eu havia sinalizado à atendente. Quando disse que iria depender do valor da corrida, ele então sinalizou que a maquinetazinha do cartão era touch screen, o que me impediria de digitar a senha. Durante a viagem o taxista camarada me informou que havia duas operadoras que estavam oferecendo taxas bem mais baixas, disponibilizando uma maquineta mais simples, o que já atraiu a ele e a maioria dos seus colegas de táxi. Me mostrou então a tal maquineta, ao que percebi ser bem básica mesmo, com a tela quase do tamanho da de um celular, totalmente touch screen e, o que é pior, sem Android. Sorte minha que o valor da corrida ficou bem aquém do que eu esperava, dando pra pagar com o pouco dindin que tinha no bolso.

Aproveitando as informações do taxista, que inclusive ficou de reclamar com a sua operadora Cielo, fiz uma pequena pesquisa sobre as duas novas máquinetazinhas de cartão, dois remédios para redução de custos e, ao mesmo tempo, duas pragas da inacessibilidade para deficientes visuais que são oferecidas pelas empresas Cielo e Pague Seguro.

A Pague Seguro disponibiliza uma maquineta que isenta o cliente de taxas, onde se paga um valor fixo de 500 contos pela maquinetazinha. A ela deram o nome de “Moderninha”, mas, em termo de acessibilidade, de moderninha não tem nada. A Cielo, por sua vez, disponibiliza o Cielo Mobile, onde o cliente recebe um leitor de cartão e paga apenas R$ 11,90, com taxas que variam entre 3% e 7%. Esse leitor era a tal maquinetazinha do camarada taxista que citei e é totalmente inacessível para consumidores deficientes visuais.

Julgo ser importante a criação de inovações que favoreçam a competitividade, disponibilizando redução de custos através de tecnologias mais baratas. Não obstante, creio ser inadmissível o favorecimento de determinados segmentos em detrimento de outros. Sei que estamos falando aqui de um negócio que envolve milhares de empreendedores e bilhões de dinheiro, mas é fundamental que se considere que se trata de milhares de pessoas cegas em todo o mundo que são consumidores e devem ter os seus direitos preservados.

Nem vou entrar no mérito de que...

Clique aqui e leia o restante deste artigo e de outros no blog Olhar de Um Cego

Comentários

Comentar

O conteúdo deste campo é privado não será exibido ao público.
  • Endereços de páginas de internet e emails viram links automaticamente.
  • Tags HTML permitidas: <a> <em> <strong> <cite> <code> <ul> <ol> <li> <dl> <dt> <dd>
  • Quebras de linhas e parágrafos são feitos automaticamente.

Mais informações sobre as opções de formatação

CAPTCHA
Escreva o resultado da operação matemática abaixo para prosseguir:
7 + 13 =
Escreva o resultado da soma... ex. 4 + 2 = 6