A audição aguçada de quem não enxerga: existe mesmo?

Há um pormenor importante que gostaria de abordar aqui, por ser de fato muito comum e ao mesmo tempo desagradável para muitos deficientes visuais, inclusive para este que vos fala. Desde já, adianto que não é nada tão absurdo, mas, como tantas outras “interações sociais”, seria muito bom se fosse evitado. E digo isso não apenas por experiência própria, como também por relatos de outras pessoas.

Há uma mania interessante que as pessoas têm de imaginar que pessoas que não enxergam, adquiriram uma maior capacidade de ouvir e de perceber facilmente a voz alheia. Trata-se de uma crença popularizada que inclusive já foi corroborada por algumas pesquisas científicas. Pesquisadores já tentaram confirmar essa tese, encontrando em seus camudongos e até em pessoas cegas, uma capacidade maior de se perceber sons e vozes, quando não se tem o artifício da visão. Mas só pra se ter uma idéia dessas teorias científicas, uma certa pesquisa indicou que pessoas que nasceram cegas ou perderam a visão antes dos dois anos têm uma maior facilidade de se guiarem por sons dos que os que enxergam ou perderam a visão depois de adultos, enquanto que, outros cientistas apresentaram conclusão diferente, indicando que os indivíduos que perderam a visão depois de adultos desenvolvem uma audição mais aguçada.

Tais pesquisas observaram o córtex visual, uma parte grande do cérebro que Deus reservou para gerenciar a visão de suas criaturas. Como este gerente, por questões óbvias, não tem atividade no cérebro de um cego, dizem que ele é escalado para gerenciar outros setores, entre eles o da audição. A discrepância entre as duas pesquisas está na análise do reaproveitamento do tal gerente.

A primeira pesquisa indica que quanto mais jovem se adquire a cegueira, melhor será a capacidade para distinguir alterações nos sons, pois o gerente córtex visual está mais suscetível a se adaptar melhor a outras tarefas, processando informações de outros sentidos. É como se fosse um diretor novo que fôra escalado para um setor que foi excluído do projeto da empresa e que, portanto, estaria com todo gás para assumir um outro setor qualquer.

Por outro lado, a outra pesquisa entendeu que, nos indivíduos que nasceram cegos ou perderam a visão nos dois primeiros anos de existência, o tal gerente é completamente inerte, estando teoricamente inutilizado para ser reaproveitado por outro sentido, sendo que, nos indivíduos que perderam a visão depois de adultos, o dito cujo tá ativo e fresquinho, pronto para assumir outra função. Na hipótese do diretor escalado para o setor inexistente da empresa, quando tal setor se extinguiu bem depois da sua chegada, tendo este trabalhado por algum tempo nele, o cabra estaria apto para assumir outro setor, com o mesmo vigor que no anterior, já que ele tá na ativa e cheio de experiência. Já se ele chegou na empresa sem assumir o setor a ele destinado, ficando sem executar a sua função, estando obsoleto por ficar um bom tempo ganhando sem trabalhar e bem depois lhe arranjam outro setor, o ocioso estaria mal-acostumado e ficaria preguiçoso para exercer outra função.

Discrepâncias científicas à parte, devo dizer que não existe nada disso de audição sobrenatural, mapeamento tridimensional dos sons, sexto sentido, capacidade superdotada de reconhecer vozes ou coisa que o valha, como é propagado pelo senso comum, muitas vezes fundamentado por notícias científicas. Até hoje, dentre as dezenas de cegos que encontrei, sejam com perda recente da visão, os chamados cegos frescos como eu, ou os que já estreiaram sem ela, os chamados cegos véi, nenhum tem uma audição sobrenatural ou algo parecido, como muitos pensam, com a do Demolidor, aquele super-herói cego do cinema que detecta os sons mais inaudíveis possíveis, como o batimento cardíaco de uma criatura a dezenas de metros de distância, e que bloquea sons específicos como o da sua respiração para poder se concentrar e ouvir sussurros do apartamento ao lado, tendo desenvolvido também outros sentidos, como o seu tato, que permite que ele leia livros apenas passando os dedos sobre as letras impressas (sem Braille) ou o olfato, que o permite reconhecer as pessoas pelo odor.

Quem me dera ter o super poder dos radares sensoriais do Demolidor do filme e, se não fosse pedir muito, receber de quebra a sua beleza elektrizante. Mas é bom que se revele para os desavisados que não existe esse negócio de audição e percepção de vozes mais desenvolvidas. O que pode haver é uma maior atenção, por parte de quem não enxerga, aos sons do ambiente, já que a criatura passa a “enxergar” pelo ouvido. Da mesma forma que há uma tendência de haver uma maior facilidade de memorização, já que não poderá recorrer facilmente a escritos e “colas”. Mas é de bom tom considerar as particularidades e as habilidades de cada indivíduo, podendo haver os que se viram melhor ou pior com a sua audição ou com a sua memória.

Tendo me estendido nas minhas prolixas, porém necessárias, explicações introdutórias, devo chegar finalmente ao pormenor real motivo deste post. Trata-se da desagradável necessidade que algumas pessoas têm de induzir uma pessoa cega a reconhecê-la pela voz. Para ilustrar o inconveniente, vou citar um episódio ocorrido com um conhecido, que é comum acontecer com tantos outros.

Dia desses, no meu trabalho, chega um camarada no final do expediente em meu guichê e diz:

- E aí Jean, beleza?

- E ai meu velho, beleza. – respondo, já dando um indício de que não sabia ainda de quem se tratava, senão o teria chamado pelo nome.

- Sabe quem tá falando aqui?

Aí eu já ouço acionar o detector de inconvenientes que me mandaram junto com a cegueira e tento lidar da melhor forma possível com a situação. Imagine você na rua, encontrando aquela criatura que você não vê há um bom tempo ou mesmo que havia visto uma vez só em toda a sua vida e que te diz: - Oi fulano (a), lembra de mim? Pois no nosso caso é pior.

Mesmo se tratando de alguém que você já encontrou algumas vezes ou que não tivesse muito tempo que o ouviu pela última vez, nem sempre há a obrigação de você reconhecer vozes por ai. Há quem não reconheça fisionomias recentes com facilidade, imagine! Some a isso, fatores como semelhança de vozes, barulhos paralelos, foco em outros afazeres ou sons etc. Para ilustrar o fator de estar focado em outra coisa, imagine um casal de namorados naquela praia, sendo você um dos pombinhos. De repente ela sai e, ao retornar, pega o cabra distraído, apreciando os detalhes do fio dental de uma sereia bronzeada tomando sol na sua frente. Reservadas as suas proporções e excluída a sessão de espancamento do exemplo anterior, da mesma forma é com o cego que é surpreendido com alguém lhe perguntando se ele sabe com quem está falando.

Voltando ao colega lá atrás, respondi então educadamente que não lembrara, ao que ele responde:

- Sou eu rapaz, fulano! Lembra mais de mim não, é?

- Num lembro o que, rapaz! Num tava lembrando foi da voz – respondo eu.

E olha que se tratava de um camarada, que, apesar de gente boa, só havia encontrado algumas poucas vezes por ai. Mas, independente da freqüência que você encontra a criatura, é sempre de bom tom você se anunciar ao abordar aquele que não te enxerga. Tem um cabra, por exemplo, que vai constantemente no meu trabalho e toda vez, antes de falar comigo, fala: - E ai Jean, é fulano, tudo bem? E olha que não fui eu que ensinei e sim porque ele percebeu que a comunicação flui melhor assim.

Mas voltando novamente ao colega lá atrás, ele continuou: - To com a minha irmã aqui comigo, fulana, ao que eu estendo a mão e digo: - Oi, tudo bem, foi você que teve aqui outro dia?

Perguntei pelo fato de uma moça ter ido lá uma vez alguns dias antes e se apresentado como irmã dele. Só que dessa vez era outra irmã, que me disse: - Não, foi a minha outra irmã. Somos duas e as nossas vozes se parecem mesmo.

Repare que eu não liguei as duas irmãs por conta da voz e sim pelo fato de ter ido uma delas lá, pouco tempo antes. Ligação equivocada a parte, há também uma tendência equivocada a ligar cego com percepção de vozes. E é um equívoco que pode tornar certos episódios desagradáveis, até porque tem alguns que insistem em fazer você reconhecer a sua voz de qualquer jeito.

Tem algumas pessoas, que, pela particularidade da voz ou pela freqüência que você encontra ou se relaciona, logo se reconhece, mesmo ao se encontrar nos locais mais incomuns possíveis. E trata-se de uma condição perfeitamente normal, nada “de outro mundo”. Imagine você recebendo uma ligação de um amigo que você não encontra há anos e você reconhece a voz imediatamente. Há algo sobrenatural nisso? Imagine então você recebendo a ligação de sua esposa e, por falta de atenção, ou por alguma entonação diferente da voz, você não reconhece de imediato de quem se trata. Há algum absurdo nisso? Apesar do risco natural de você ser convocado por ela para discutir a relação, é absolutamente possível. Sendo assim, se for notado que uma criatura que não enxerga não reconheceu a sua voz, não custa nada lhe indicar, desde o início, quem é, e, principalmente, evitar que a criatura fique lá perdida sem saber de quem se trata. Por outro lado, não se assuste se, ao encontrar tal criatura por aí, esta o reconhecer pela voz.

Tem outra figura, por exemplo, que, além de ser um senhorzinho de uma voz característica, possível de ser reconhecida após anos-luz sem ouvi-la, estava no meu trabalho quase que semanalmente e, de quebra, ainda o encontrava em um barzinho que eu freqüentava sempre. Então toda vez que eu o encontrava pela rua ou lhe ouvia conversando na fila ou com o colega do lado, lhe dizia:

- E ai seu Chico, como vai?

E ele sempre respondia, em absolutamente todas as centenas de vezes em que isso aconteceu: - Rapaz, é incrível né? Como é que ele reconhece que sou eu!

Por: Jean Abreu

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