Até consumir pode ser desafiador

Entrar em um estabelecimento comercial para consumir ou simplesmente conferir as novidades são atividades comuns aos que enxergam. Para quem é cego, andar pelo comércio pode render histórias engraçadas, ou contos dignos dos filmes de terror.
Como escolher a cor do vestuário, de que forma se arruma e qual o embasamento para a escolha das cores estão entre as dúvidas mais frequentes. Já entre as perguntas mais esquisitas temos: “como ela se veste, “como ela sabe!? Detalhe: a questão é direcionada somente ao acompanhante que enxerga.

Quando desejava adquirir peças para vestuário ou beleza, percebi a penalização relacionada às limitações da deficiência. “Tão bonita, mas cega”. Será que não perceberam que ouvia aquelas frases, que só fazem sentido a quem desconhece a deficiência?
Ao dirigir-me ao supermercado sozinha pela primeira vez, fui tratada com gentileza e recebi o auxílio necessário para a compra dos produtos que buscava. É importante ressaltar que os estabelecimentos comerciais não possuem funcionário exclusivo para o atendimento aos deficientes. Isso porque não é necessário atendimento diferenciado, tendo em vista que o bom senso deve imperar no tratamento ao cliente.
Ao ingressar em outros estabelecimentos, encontrei vendedores atenciosos, capazes de ler uma bula de medicamentos, caso fosse necessário. Na procura por vestuário, consegui verdadeiros consultores de moda, aplicados em não errar a cor da peça.

Em Porto Alegre, o monitor de qualidade Rafael Matos, que é cego, passou por situações mais constrangedoras do que a pena e as dúvidas estranhas : “Em uma churrascaria, antes mesmo de verificarem se poderia pagar pela alimentação, afirmaram que não serviam almoço de graça nem para deficientes”, conta o porto-alegrense.
Infelizmente, esse foi só um dos locais em que Rafael se arrependeu de ter entrado: “quando procurei uma loja para uma compra que desejava, ouvi os vendedores dizendo que eu poderia ficar por último na fila de atendimento, pois um cego tem todo tempo do mundo, já que não consegue fazer nada”, conta.

Em alguns momentos, a impressão é de que cegos e “videntes” fazem parte de mundos distintos, sem elo. Entretanto, isso ocorre devido a mentalidade fechada de alguns videntes, mas também pela atitude pedante de alguns deficientes, que marcam o restante do grupo. Ambas as atitudes fomentam o preconceito, que mesmo sem querer é pertencente a sociedade, que se compadece com suas minorias.
Certamente, em uma pesquisa mais ampla, relatos como este se multiplicariam ou seriam mais revoltantes. Isso porque vivemos em um mundo onde somos rotulados por não vermos, por não seguirmos o padrão TV de estética ou simplesmente por tentarmos ser naturais, como você que lê este texto. A realidade é que ainda há muito preconceito velado, no entanto, a culpa não é do comércio, mas de algumas pessoas que o compõem.
Todo deficiente visual anseia por uma solução rápida e um diálogo aberto capaz de diminuir o desconhecimento do outro em relação as suas reais necessidades. Todavia, este é um trabalho de “formiga”, já que demanda tempo, esforço e paciência no enfrentamento de negativas e da ignorância alheia.

Por: cristiely carvalho,

Fonte: De Olhos Fechados

Fonte: De Olhos Fechados

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