Considerações sobre o NNS-1, software para deficientes visuais que é uma "mão na roda"

Pessoal, está em fase de conclusão um software para celular que vai, como eu disse na reportagem do Fantástico, ser uma mão na roda para o cotidiano dos deficientes visuais. E o mais importante, a meu ver, é que se trata de um produto genuinamente baiano. O NNS-1, nome inicial do software, é desenvolvido pela NN Solution, que fica localizada no Rio Vermelho, o bairro soteropolitano mais charmoso e atraente, aqui pertinho de casa, e que é considerado o coração boêmio de Salvador. A NN é uma empresa incubada na UFBA, mais precisamente em uma escola em que eu nutro uma saudável saudade, a Escola Politécnica, berço dos engenheiros baianos, onde eu passei alguns bons anos cursando Engenharia Civil, apesar de ter desistido por conta da perda de visão e ter tomado outros rumos profissionais.

Mas vamos ao que interessa. Vou tecer aqui alguns comentários sobre as minhas impressões sobre o programa que, apesar do pouco tempo de cegueira e, conseqüentemente, do pouco acesso a soluções de tecnologia assistiva, me faz perceber que se trata de uma importante ferramenta propulsora da acessibilidade e autonomia das pessoas com deficiência visual. As minhas opiniões aqui são integralmente pessoais e, é bom que se diga, apesar de uma certa forma fazer parte do trabalho, sendo um dos deficientes visuais que prestam uma consultoria, testando o software e colaborando na sua evolução, este artigo não foi solicitado e talvez, nem será conhecido pelo pessoal do NN Solution.

Um diferencial que fica claro no NNS-1 é o fato de unir em um só aplicativo, diversas soluções. O projeto inicial previa um identificador de luminosidade, um identificador de cédulas, um identificador de cores e um scanner que ler imediatamente o texto processado. Como o produto será lançado agora em abril na Reatech, uma feira de produtos de acessibilidade e tecnologia assistiva que é realizada anualmente em São Paulo, eles suprimiram da versão de lançamento o identificador de cores, por ser o software que apresentou mais instabilidade durante o processo de desenvolvimento. Como todas as atividades do software utilizam a câmera do celular, o identificador de cores, pelo menos inicialmente, não se mostrou muito compatível com as particularidades do hardware das câmeras. Então, a probabilidade de erros tava fora do desejável. O que tava acontecendo é que a luminosidade tava influenciando na detecção da cor, e, às vezes, um marrom era “lido” como preto ou um azul como verde. O pessoal então fez algumas mudanças, mas nessa semana o Joselito, sócio da NN, me trouxe o celular com a versão final de lançamento já sem o identificador de cores, por causa dessas instabilidades que, segundo ele, tavam sendo solucionadas para uma versão futura.

Dentre as três soluções que o NNS-1 traz, a que mais me é útil é o scanner leitor. Ele possibilita que, em poucos segundos, eu possa ler um cartão de visita, um texto impresso ou mesmo até páginas de um livro. Basta você direcionar a câmera do celular pro dito cujo, acionar o aplicativo e aguardar para que a voz da Raquel, que inclusive é uma das que mais me agrada, me leia o que até então só poderia me ser acessado por um olho amigo ou por um scanner ligado em um computador com leitor de tela. O scanner leitor, como falei, pode “pegar” todo o texto da página de um livro, permitindo que você grave página por página para ler depois. Mas, a meu ver, a sua real utilidade está em podermos ler pequenos textos, como os de cartões de visita, panfletos, documentos, pequenas correspondências etc. Com ele, não preciso aguardar que alguém me leia a ata de reunião do condomínio ou aquele telefone que ta no cartão do encanador, por exemplo.

O identificador de cédulas, por sua vez, possibilita que identifiquemos notas de real. Joselito me explicou que o software utiliza uma tecnologia, onde eles inserem uma quantidade de imagens capturadas do número impresso nas cédulas, permitindo que o aplicativo tenha quase 100% de chance de reconhecer, dentre elas, uma que o faça identificar qual nota é aquela. Para isso, devemos dobrar a cédula no meio, acionar o aplicativo e deslizar o celular, lentamente, com alguns centímetros de distância, no canto da cédula, onde fica o número, até que o aplicativo nos informe o valor da bufunfa. A identificação não é imediata, até por que o cego, inadvertidamente, pode dobrar a cédula do lado errado, onde tem o número maior e como o aplicativo “pega” o número dos cantos, inicialmente se o tal manter-se mudo, basta mudar o lado da dobra e mandar brasa. Fui informado que os engenheiros tão trabalhando pra tornar essa identificação mais prática.

A terceira solução, particularmente para mim não é tão útil e ao mesmo tempo, é o aplicativo mais eficaz e de uma grande utilidade também. Apesar do paradoxo, devo explicar que, apesar de, para mim, “ainda” não ser útil, devido ao meu resquício de visão me permitir perceber luminosidade, esse aplicativo se apresenta bem útil para cegos que queiram economizar na conta de energia, não deixando luzes acesas por aí. Para isso, basta acionar o aplicativo e direcionar o celular para o ambiente que, imediatamente, a amiguinha Raquel informa se o ambiente ta claro, escuro ou com pouca luz. O identificador de luminosidade já ta “amarrado”, como se diz por aí. Não tem mais o que melhorar, por que consegue identificar a luminosidade com sucesso, como se propõe a fazer.

A observação da eficácia da terceira solução não quer dizer que as duas anteriores também não a tenham. É que, como se trata de tecnologias mais complexas, o identificador de cédulas e o scanner leitor ainda têm o que melhorar, o que não quer dizer que eles não satisfaçam as expectativas. Muito pelo contrário, fazem sim o que se propõem a fazer, só que devem ter uma otimização nos resultados. A identificação das cédulas não é tão rápida como deveria ser e o scanner leitor não é sempre perfeito. No primeiro caso, acho que porque depende também de uma interação perfeita com as câmeras dos celulares e no segundo, se trata de uma característica intrínseca dos OCR’s, tecnologia utilizada no processamento dos textos escaneados. Os OCR’s nunca são perfeitos, sempre vão deixar algumas “sujeiras” nos textos. Enfim, a perfeição também pode ser impossível, né? O importante é que os engenheiros da empresa responsável pelo desenvolvimento dessa maravilha estão se empenhando bastante para que a eficácia dos quatro aplicativos cheguem ao máximo possível. E o mais importante ainda é que as soluções funcionam, tanto é que, aquele que não tava correspondendo às expectativas, o identificador de cores, não fará parte da versão de lançamento.

E cá pra nós, em se tratando de tecnologia, sobretudo de tecnologia assistiva, perfeição é palavra fora do dicionário, né? Que o diga meu Jaws versão 10 que rodo aqui no netbook com Windows XP, e cuja fala vez em quando dá umas soluçadas e travadas. Mesmo assim não deixa de ser o leitor de tela mais perfeito e que faz o que se propõe a fazer.

Então pessoal, aguardem o lançamento desse, a meu ver, revolucionário produto, no mercado, que se fará na Reatech WWW.reatech.tmp.br que acontecerá nos dias 14 a 17 de abril de 2011 em São Paulo. Quem puder ir, procure o estande da NN Solution.

E é muito importante que, nós, público-alvo de produtos como este, participemos e colaboremos com o sucesso dessas inovações. Para isso, vamos adquirir, divulgar e, principalmente, colaborar com a sua evolução. Podemos inclusive começar a fazer isso agora. Logo abaixo, disponibilizo um questionário de pesquisa, enviado pela NN Solution, para que respondamos e passemos adiante. Afinal, eles só conseguirão chegar o mais próximo da perfeição conhecendo as nossas reais necessidades. Preencham aí este arquivo txt e enviem pra meu email jean@vejam.com.br que encaminho pra eles.

Ah, esqueci de falar... o software roda em ambiente Symbiam, esse O.S. que roda, pelo menos por enquanto, nos celulares da NOKIA, mas o pessoal da NN pretende atingir também outros sistemas como o Andróid, que, inclusive, essa semana, alcançou a liderança no mercado americano, superando o sistema dos iPhones, mas isso é assunto pra outro tópico.

Por: Jean Abreu

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Comentários

Assistí matéria do Fantástico

Assistí matéria do Fantástico sobre essas invenções para deficientes visuais e as que mais gostei foram o que ajuda a pegar ônibus e essa do celular... preciso muito dos dois aí.

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