Juce Simplício

Local, idade: 
Campinas, SP
Profissão:: 
Bióloga

Vou escrever um pouco sobre o histórico de minha doença e sua interferência em minha vida. Já nasci com glaucoma, os médicos não me examinaram e não notaram de imediato, minha mãe foi quem percebeu, pois eu não acompanhava os movimentos e não respondia à luz, acho que nasci vendo muito pouco. Minha mãe procurou ajuda e logo depois eu fui operada de um olho de cada vez, em um dos olhos a operação não deu certo e perdi a visão, minha mãe diz que foi inexperiência da equipe médica, pois era fim de ano e residentes se responsabilizaram pela operação, mas não sei se isso procede.

Juce SimplícioDesde então uso colírio regularmente, e desde a infância padeço em longas filas em hospitais públicos, sempre esperando e às vezes tendo de viajar para chegar no local da consulta. A baixa condição financeira de minha família não permitiu que eu tivesse bons médicos e uma boa educação de base.

Passei por uma série de cirurgias, na infância fazia praticamente uma por ano, a ultima foi aos treze anos,. Depois da cirurgia sofri a aplicação de algum medicamento no olho. Depois disso não operei mais, tenho controlado bem com colírios, atualmente uso Alphagan P.

Ao longo dos anos tenho sentido uma certa perda visual, perda de nitidez, e também desenvolvi fotofobia. Não me lembro de ter visto muito melhor algum dia, mas a nitidez era melhor. A fotofobia procuro controlar usando chapéus, não consigo ver bem com óculos escuros e acabo trombando ainda mais com as pessoas.

Minha vida escolar foi um ligeiro caos, nunca enxerguei no quadro negro e na infância tinha de me levantar e ir até lá pra copiar, era bastante constrangedor, depois passei a pedir pros professores ditarem, mas isso me valeu alguns problemas de grafia, também copiava do caderno dos amigos. Embora não enxergasse muito melhor de óculos, os médicos sempre insistiam em me receitar, aí eu usada uma correção inadequada, e o mais ridículo, usada lentes grossa no olho em que não enxergava.

Tinha uma certa facilidade com os estudos, se não tivesse acho que não teria conseguido estudar.

Acho que a visão subnormal atrapalhou muito em diversos pontos da minha vida, não consigo ver as pessoas de longe, nem reconhecer as pessoas bem, minha memória visual é ruim. Às vezes me sinto meio Miguilim, tem sempre aquele passarinho na árvore que todo mundo vê, menos você. Também tenho pouca independência, em alguns lugares não posso ir sozinha pois não consigo tomar ônibus, achar endereços na rua e coisas assim.

Atrapalhou também um pouco na minha profissão, tentei fazer História, mas não conseguia ler em microfilmes, nem podia me debruçar e colocar lupas em documentos nos arquivos. Mudei pra Biologia, mas não pude estudar coisas mais voltadas para a ecologia, pois não consigo ver insetos em plantas, por exemplo, nem me orientar no mato para não acabar tocando em uma urtiga ou pisando numa cobra.

Prestei vestibular com prova ampliada, mas a universidade não ofereceu muitos recursos para facilidade dos estudos e integração com o mercado de trabalho. Os coordenadores do curso instruíam os professores a me entregar material com letra ampliada e eu também pedia, mas uns davam, os outros não e assim ia. A leitura no quadro não era muito fundamental, mas uso telelupa (com aumento de 4x12), a mania de aulas em data show também ajuda pois fica mais claro para ler. Rolou uma coisa bastante ruim na faculdade, ganhei uma bolsa para trabalhar num laboratório no departamento de Botânica, mas a professora responsável não me aceitou quando eu relatei meu problema, ela não quis nem fazer um teste, disse simplesmente que eu não servia. Nesse momento me senti muito desamparada, fui procurar algumas estruturas da universidade, mas eles acharam o comportamento da professora normal. Por fim transferi a bolsa para outro lugar.

Agora, faço mestrado, meu trabalho é mais voltado pra área de laboratório, tenho algumas dificuldades mas com tempo consigo fazer as coisas. Tenho receios em relação ao trabalho futuro, acho que quando vc compete por uma vaga sempre acabam optando por pessoas normais, por mais que a sua eficiência seja comprovada. Embora minha deficiência não seja muito aparente de imediato, já tive problemas para conseguir aulas em escolas, e olha que consideram minha aula boa e estudei numa universidade conhecida.

Acho que ainda está muito presente no imaginário das pessoas a idéia do deficiente como ocupante de subempregos, o operador de fotocopiadoras da empresa, não há muito espaço para cargos de terceiro grau.

Procurei apontar mais as dificuldades que tenho, e o conteúdo dessa mensagem ficou um pouco pessimista, embora real. Gostaria de deixar, por fim, uma mensagem de luta, acho que temos de lutar e de nos empenhar muito mais para acesso às coisas, para estudar , trabalhar e interagir socialmente. Ao mesmo tempo que isso dá muito trabalho, desgasta, cansa, frustra, às vezes isso nos dá mais força e coragem e nos prepara pra enfrentar as inúmeras batalhas da vida.

Juce Simplício
(novembro de 2005)

Comentários

Perda de 90% da visão.

Depois de uma cirurgia de colamento de retina passaram 8 meses e até agora nada, fiquei com 10% e antes da cirurgia enchergava 80% os médicos não dizem nada, oque aconteceu tenho diabetes mas estou controlando, estou muito infeliz porque se não fosse isso o outro olho deu uma emorragia e embaço tudo meu olho agora estou andando acompanhada sempre e nunca precisei disso estou muito triste e não sei se foi erro médico ou oque, mas que Deus posso me ajudar, agradeço a atenção.

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